MADE SÃO PAULO // FETICHE® CAROL ARMELINI & PAULO BIACCHI

VISIONÁRIO,  MAS REALISTA.

 

O DESIGN DE PRODUTOS, PARTICULARMENTE DE MOBILIÁRIO E OBJETOS ÚTEIS LIGADOS À ARQUITETURA E À DECORAÇÃO, TEM EVOLUÍDO DE FORMA A ASSIMILAR NOVAS FORMAS DE CRIAR, PRODUZIR E USAR – ALGO PRÓXIMO DE UM ATIVISMO. APESAR DE JOVEM E RELATIVAMENTE DESLOCADO DA FORMA TRADICIONAL COMO O DESIGN É VISTO PELO MERCADO, O ESCRITÓRIO FETICHE DESIGN ENCARNA ESSE PROCESSO DE MUDANÇA E VEM EXPERIMENTANDO UM MOMENTO DE CONSOLIDAÇÃO.

 

O uso de materiais descartados, vulgares ou mesmo não industriais é a forma de apontar para o despojamento que pode permitir uma boa experiência de vida, não necessariamente simples ou minimalista, mas com possibilidade de satisfação não conservadora ou relacionada à acumulação e ao luxo. Ao utilizar, assim, tubos de plástico flexível, conhecidos como “espaguete” e usados à exaustão no mobiliário vernacular das cidades do interior e das periferias por causa do seu baixo custo, os designers Paulo Biacchi e Carolina Armellini, do escritório FETICHE, de Curitiba, desenvolveram o Banco R540, que, à primeira vista, parece uma escultura sem função prática ou mesmo uma maquete de estrutura arquitetônica. Contudo, ao provar o banco, que foi adquirido pelo centro de design da fabricante de automóveis Renault na França para servir de inspiração aos seus designers, descobrimos a função e o belo colorido feito estético criado graficamente pelo plástico trançado.

 

Esse tipo de reaproveitamento conceitual é levado ao extremo na coleção Consertam-se Móveis, Tratar Aqui – exposta na Bienal Brasileira de Design de 2012, em Minas Gerais, na qual os próprios autores recuperam com fita reforçada móveis danificados de madeira, enfatizando o “remendo” e o fato de serem usados. Talvez o maior exemplo de protesto contra o pouco uso do design na indústria brasileira, cada unidade da série recebe uma irônica placa dourada, com o nome da coleção gravado, que serve de alerta aos desavisados sobre a reapropriação e também de crítica à noção de valor praticada pelo mercado.

 

Paulo e Carolina começaram como Fetiche Design para casa, afirmando um objetivo maior do que as pessoas costumam associar ao design – sofisticado, de alta tecnologia e exclusivo. Excluir os termos “para casa” pode ter sido uma simplificação a fim de facilitar a comunicação comercial, mas pode também ter outro viés, como é explicado pelo conjunto do trabalho – visionário, mas realista – que já realizaram. (por Bernardo Senna*)

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